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sábado, 5 de novembro de 2016

espelho III

2015.
menina prodígio, seguindo a vida como devia.
mestrado logo após faculdade logo após ensino médio.
tese logo após do tcc logo após o vestibular.
de cabeça baixa, sem pensar por si só, como deve ser.
esperando, pela primeira vez, ser o que a sociedade espera.

2011.
menina burra, não entende matemática.
menina estúpida, esqueceu as formulas de química.
burra, burra, burra, burra, burra.
não vai passar no vestibular, não vai ser ninguém na vida.
gastrite, ansiedade, crises, choros, estresse, tricotilomania.
é frescura, aqui a gente é feliz.

março, 2016.
profissão?
...
tá trabalhando?
...
tá estudando?
...
o que tu fez hoje?
...

fracassada, vazia, inútil.
ninguém se importa.
vai morrer sozinha.
nada vale a pena.
fracassada
.
.
vazia
.
.
inútil
.
.
.
infeliz
insignificante
vazia

novembro, 2016.
(mais ou menos) livre.
(mais ou menos) feliz.
(mais ou menos) satisfeita.
o futuro a mim pertence.
a minha vida, eu quem decido.
em recuperação.


segunda-feira, 26 de agosto de 2013

orvalho

Inspirado pelo Suéter Azul, o primeiro da competição de Slam do livro Slammed.


Lembra a primeira vez que você disse que me amava?
Era o primeiro dia de junho e eu você havia me comprado aquela camiseta verde. Aquela que você disse que deixava meus olhos como um jardim com orvalho, aquela que você colocou seu perfume nela para me lembrar que eu era sua. E que você era meu. Você sorriu pra mim e disse que amava meus olhos, que amava meu sorriso, que me amava. Eu chorei e disse que eu também te amava.

Lembra da primeira vez que dormimos juntos?
Era Halloween e nós não comemoramos isso aqui. Eu estava usando aquela camiseta verde que você me comprou. Aquela que você disse que deixava meus olhos como um jardim com orvalho, aquela que você colocou seu perfume nela para me lembrar que eu era sua. E que você era meu. Eu não quis tirar a camiseta e você disse tudo bem. Era sua primeira vez também.

Lembra de quando você me pediu em casamento?
Era Natal e convidamos nossas famílias para nosso apartamento. Eu estava usando aquela camiseta verde que você me comprou. Aquela que você disse que deixava meus olhos como um jardim com orvalho, aquela que você sempre coloca seu perfume para lembrar que eu vou ser sempre sua. E que você será sempre meu. Quando chegou meia noite, você chamou todos para a sala e se ajoelhou em minha frente. Você tentou dizer algumas palavras ensaiadas até que suspirou e disse um “foda-se” na frente de sua bisavó. Você olhou nos meus olhos e disse que me amava e que queria passar o resto da vida comigo. Eu chorei e disse que também queria passar o resto da minha vida com você.

Lembra de quando você chorou no meu colo?
Era logo após o Ano Novo e nossas famílias haviam acabado de ir embora. Eu estava usando aquela camiseta verde que você me comprou. Aquela que você disse que deixava meus olhos como um jardim com orvalho, aquela que você esqueceu de colocar seu perfume para me lembrar que eu sou sua para sempre. E que você é meu. Isso sempre seria assim, eu pensei, enquanto acariciava seu cabelo e segurava minhas próprias lágrimas em uma vã tentativa de parecer forte.

Lembra da ultima vez que você disse que me amava?
Era o quinto dia de novembro e você sabia que não sobreviveria até meu aniversário em dezembro. Você estava segurando aquela camiseta verde que você me comprou. Aquela que você disse que deixava meus olhos como um jardim com orvalho, aquela que eu comecei a colocar meu perfume para lembrar que você será sempre meu. E que eu sempre serei sua. Você beijou minha barriga e pediu para que eu lembrasse todos os dias para nossa filha de como você era. Você disse que me amava e que eu não deveria duvidar que você continuaria me amando, mesmo havendo o simples obstáculo da morte. O simples e eterno obstáculo da morte.

Lembra da primeira vez que nossa filha visitou seu túmulo sozinha?
Havíamos brigado. Era dia dos pais e eu estava triste. Ela também. Ela estava usando a camiseta verde que você me comprou. Aquela que deixavam os olhos verdes dela como um jardim com orvalho, aquela que não tinha mais perfume algum e que ficava um pouco folgada. Ela pediu para sua mãe a levar até o cemitério e pediu que ela esperasse no carro. Ela chorou. E levou nossas flores favoritas. Ela levou as tulipas brancas. Ela conversou com você, ela disse que te amava e disse que não havia passado um dia sequer que eu não falei de você. Eu não deixei que ela esquecesse de você. Eu nunca esqueci de amar e me sentir amada por você.


Das coisas que eu não sei

Eu não sei muitas coisas.

Não entendo nem como os telefones
ou os antiinflamatórios funcionam.
Não sei quando alguém está mentindo
ou omitindo.
Não sei tocar violão
nem sei cantar.

Não sei quanto tempo demora para que um coração
se recupere após uma perda
ou quanto tempo demora até que isso vire apenas
mais uma memória ruim.
Não sei rimar para acalentar um coração
e não sei categorizar poesia.

Não sei se você me quer por perto
ou se só quer distância.
Não sei se você gosta do meu cabelo liso
ou cacheado.
Não sei se você acha meu perfume forte
e muito doce.

Eu sei que quero você comigo,
eu sei que gosto do meu cabelo cacheado
e eu sei que uso mais perfume que deveria.

Eu sei que dói, mas uma hora passa
e eu sei que amo poesia.

Eu sei qual antiinflamatório tomar para dor de cabeça,
eu sei que não sei mentir bem
e sei que nunca devo cantar em público.

E sei que eu amo você.

quinta-feira, 11 de julho de 2013

SIlêncio


O som do nada é o que mais trás medo a nós, seres humanos. Nós não sabemos como ele soa, não queremos saber. Gritos nós assustam, mas não nos deixam paralisados. Guitarras furiosas nos deixam excitados, o silencio depois delas que nos deixa atônitos – o som fica reverberando em nossa alma, em nosso coração. Uma pessoa em que sofre em silêncio sofre mais do que aquele que grita e esperneia. O que sofre em silêncio não tem com quem gritar, ou já acabou com sua cota de ouvintes. O silêncio nos dá espaço para pensar e pensar, as vezes, é a ultima coisa que precisamos. O silêncio dói mais do que um tapa, o silêncio exige mais que a discussão. O silêncio é o maior grito de socorro que uma pessoa pode ter.

terça-feira, 25 de junho de 2013

Um breve desabafo de mais uma madrugada nostálgica.

            Sinto falta da época que eu não precisava enviar meu currículo para todos os lugares possíveis e que minha única preocupação era passar no exame de química. Não me entenda mal: eu gosto do modo que vivo hoje, eu gosto dessa vida de faculdade e eu amo o que escolhi estudar. Mas não posso dizer que não sinto falta da vida “fácil” de pré-adolescente – não que minha mentalidade tenha evoluído muito da época que eu tinha 14 anos, as vezes até acho que eu tô cada vez mais vivendo uma falsa adolescência. Eu realmente confio mais na Érica de 4 anos atrás do que na Érica de 2013. Ou é a minha falta de autoestima falando. Não sei.
            Mas voltando a falar de nostalgia. Eu sofro de uma nostalgia crônica. Eu sinto falta de como era chegar numa aula e ser recebida com carinhos e brincadeiras bestas por meus amigos. Acho que na verdade eu sinto falta de passar tempo com meus amigos. É muito confuso, quando se muda meio que drasticamente de vida: tu te acostuma  aquela vida bacana de ir pra escola e falar bobagem com teus colegas e tem que ir pra um lugar completamente diferente com pessoas diferentes num turno diferente. Tu tem que fingir ser séria, ou ao menos fingir saber alguma coisa dalí. Eu não sei. Acho que tenho um principio de sociopatia. Não é que eu não queria ser amiga das pessoas, eu não consigo. Eu não sei fazer amizades e nem aparentemente manter apenas um assunto num texto.
            Queria voltar a cantar Quase Amor do Reação acreditando que eu não chorei por você. Queria ler (pasmem) Crepúsculo pela primeira vez para me apaixonar por livros, de novo, pela primeira vez. Queria receber de novo um primeiro elogio por algo que fiz. Queria poder voltar a cair no chão e não passar duas semanas reclamando de dor feito uma velha. Queria voltar a minha festa de 15 anos e dançar a valsa direito com meu pai. Queria ler Harry Potter na minha infância para poder dizer que cresci com ele.
            Não me entendam mal, eu gostei de crescer. Meu sonho de infância era fazer 18 anos e parar aí. Por enquanto tô de boa. O que não gostei foi de perder um pouquinho de mim mesma a cada aniversário comemorado. Sinto que sou cada vez mais uma ilusão, uma casca daquilo que um dia um fui.
            Minha vida se resume a nostalgia. Não gosto de pensar no presente, eu gosto de lembrar e de planejar – e nunca realizar. Parafraseando o incrível John Green (ou melhor, sua mítica esposa, the Yeti): Imaginar o futuro é um tipo de nostalgia. E eu vivo assim, numa transe entre o passado e o futuro, no limbo chamado nostalgia.


            Érica

sexta-feira, 3 de maio de 2013

Fica mais fácil? Viver?

- A vida fica mais fácil? - Sophia estava deitada no jardim de sua casa, junto com seu irmão, olhando para as estrelas - Essa coisa toda de ser oprimido, ter que seguir as regras feitas por alguém para ti. Isso melhora? - ela virou a cabeça e viu o perfil dele, tinha um vestígio de sorriso em seus lábios - Fica mais fácil? Viver?
- Não - respondeu ele - Nunca fica mais fácil muito menos melhor. Sempre haverá regras a serem seguidas, sempre seremos oprimidos, sempre terá algum problema a ser enfrentado. Mas, Sophia, essa é a beleza da história. Sempre teremos algo para lutar contra, sempre tem alguém a ser combatido. Ser contente é entediante, ser contente com a vida nos torna seres inanimados - ele levantou o corpo e encarou-a nos olhos - Viver contra a sociedade é o que move a própria sociedade.
Ele deitou novamente e ficou a ver estrelas.

terça-feira, 30 de outubro de 2012

Farol


                Se existe algo que eu gosto de admirar são os faróis. Eu sei, mania estranha. Se visito uma cidade que tem um, tenho que ir vê-lo. Ter a idéia que eles avisavam os marinheiros que logo logo estariam em terra firme e talvez com aqueles que eles amavam me da uma sensação de... Conforto. Além disso, a magnificência de suas construções me deixa abismada. Uma vez tentei lembrar da formula do MCU para calcular o diâmetro de um farol que vi em Punta del Este. Vi a luz girar, girar e girar, cronometrei, contei, pensei. Mas nunca fui boa aluna, não lembrava nem o inicio da conta que deveria fazer. Deixei pra minha imaginação fantasiar sobre isso. Já escrevi um projeto de conto inspirada num farol. Já tentei desenhar um farol.
                Então, hoje estava pensando cá com meus botões em faróis, na idéia que eles passam, no fato que eles “estão sempre lá” (obviamente). Comparei pessoas com faróis, nas suas diversas qualidades. O fato de serem confiáveis, de nos avisar que ali estaremos em terra firme e com quem amamos, de ali termos segurança – mesmo depois da tempestade. As vezes precisamos ir até nossos faróis e ouvi-los, precisamos que eles nos surpreendam com sua luz, que nos deixem momentaneamente cegos (quando ela passa por nossos olhos) para depois podermos enxergar. Ali eles estão. Ali eles sempre vão ficar esperando que nós, os marinheiros, voltemos e precisemos de calor após cair nas águas escuras da vida.
                Eu realmente gosto de faróis. Gosto de vê-los girando, girando, girando e nunca perdendo o equilíbrio. Gosto de vê-los girando, girando, girando e sempre ficando fortes ali. Por ti.